
Não é só sobre o tempo de tela: o que os hábitos digitais dos pais ensinam aos filhos
"Meu filho fica muito tempo no celular."
Essa é uma reclamação cada vez mais comum entre famílias.
Mas existe uma pergunta que talvez mereça aparecer antes:
quanto tempo nós, adultos, estamos passando no celular?
A relação das crianças com a tecnologia costuma ser discutida em termos de limites, horários e quantidade de horas. Mas a vida digital de uma família é muito mais complexa do que um cronômetro.
A criança também observa como os adultos usam a tecnologia.
E esse comportamento pode ensinar tanto quanto qualquer regra.
A criança aprende observando
Imagine a cena:
A família está jantando.
A criança pega o celular.
"Guarda o telefone. Estamos comendo."
Poucos minutos depois, o adulto recebe uma notificação e olha rapidamente para a tela.
Parece uma situação pequena.
Mas crianças aprendem muito por observação.
Se os adultos interrompem constantemente uma conversa para olhar notificações, levam o celular para a mesa, utilizam o aparelho durante momentos de interação ou verificam mensagens a todo instante, a mensagem transmitida pode ser diferente daquela que as palavras tentam ensinar.
Não significa que os pais estejam fazendo algo errado.
Significa que educar para uma relação saudável com a tecnologia também envolve olhar para os próprios hábitos.
A discussão está mudando
Durante anos, a conversa sobre tecnologia na infância ficou concentrada principalmente em uma pergunta: quantas horas por dia a criança pode usar uma tela?
Essa questão continua importante.
Mas especialistas vêm ampliando a discussão para considerar o contexto em que a tecnologia é utilizada.
A Academia Americana de Pediatria publicou em 2026 uma nova reflexão sobre o chamado ecossistema digital, que inclui televisão, videogames, internet, redes sociais, dispositivos móveis e inteligência artificial. A ideia é que duas crianças podem passar o mesmo tempo diante de uma tela e ter experiências completamente diferentes.
Não é a mesma coisa assistir passivamente a vídeos por horas, conversar com familiares por vídeo, pesquisar algo para aprender, jogar com amigos ou utilizar uma ferramenta digital acompanhado por um adulto.
Tempo importa. Mas conteúdo, contexto e companhia também importam.
E os pais também estão cansados das telas
Uma pesquisa com mais de 3 mil pais de crianças de até 12 anos mostrou que 65% dos pais entrevistados disseram passar tempo demais no smartphone, enquanto 47% disseram o mesmo sobre as redes sociais.
Ao mesmo tempo, 86% afirmaram que administrar o tempo de tela dos filhos é uma prioridade cotidiana.
Existe aí um paradoxo muito humano.
Os pais sabem que precisam estabelecer limites para os filhos.
Mas também vivem em um mundo em que trabalho, comunicação, entretenimento, serviços e vida social estão profundamente conectados ao celular.
Por isso, talvez a solução não esteja simplesmente em dizer:
"Use menos."
Talvez seja necessário ensinar:
"Vamos aprender juntos a usar melhor."
Tecnologia não é inimiga
É importante evitar uma visão simplista.
A tecnologia pode ser uma ferramenta de aprendizagem, comunicação, criatividade e acesso à informação.
Crianças podem utilizar recursos digitais para pesquisar, criar histórias, aprender idiomas, conversar com familiares distantes, explorar novos assuntos e desenvolver habilidades.
A própria Organização Mundial da Saúde reconhece que as tecnologias digitais podem oferecer benefícios, ao mesmo tempo em que chama atenção para seus possíveis impactos negativos sobre a saúde e o bem-estar de crianças e adolescentes.
O objetivo, portanto, não deveria ser criar uma infância completamente desconectada.
Deveria ser construir uma relação equilibrada com o mundo digital.
